Paciente evita a praia por anos e a vergonha cobra mais que o peso

· 8 min de leitura

Você provavelmente já recusou um convite de praia dizendo que estava cansada, e a frase saiu tão natural que nem você reparou que ela já é automática há alguns verões.

O grupo manda a foto da praia e você responde com um emoji

Sábado, dez e vinte da manhã, o grupo da família manda a foto do guarda-sol montado em Matinhos. Areia limpa, o mar atrás, as crianças de bermuda. Você lê e sente aquele aperto de meio segundo.

Você digita “que inveja”, apaga, digita de novo com um emoji de sol e deixa o celular virado na mesa. O resto da manhã segue igual, só que com um peso que não estava ali às dez.

Na consulta, essa cena costuma aparecer traduzida em uma frase seca, dita quase sem olhar para cima: “faz cinco verões que eu não ponho o pé na areia”. E vem sempre com um pedido de desculpa junto.

Não existe motivo para desculpa nenhuma. O que existe é um padrão que se formou devagar, com uma recusa de cada vez, e cada recusa isolada parecia inteiramente razoável no dia em que aconteceu.

É justamente por parecer razoável que ele não é percebido. Ninguém decide ficar cinco anos sem ir à praia. A pessoa decide não ir naquele sábado, e depois naquele outro, e o resto vem sozinho.

A conta dos convites recusados aparece quando alguém soma os anos

Essa conta é desconfortável e vale fazer uma vez, com papel, porque ela mostra o tamanho real do que está em jogo. Pegue os últimos cinco verões, contando de dezembro a março, e pense nos convites.

Use números de exemplo e depois troque pelos seus. Suponha três convites recusados por verão, entre praia, piscina de clube e churrasco com piscina. Três vezes cinco dá quinze programas que existiram e não foram seus.

Agora suponha que cada um desses programas reunia quatro pessoas de quem você gosta. Quinze vezes quatro dá sessenta encontros que aconteceram sem você, e nenhum deles vai acontecer de novo do mesmo jeito.

Refaça a conta com os seus números reais, mesmo que dê menos. O tamanho do resultado importa menos que perceber que existe um resultado, e que ele nunca tinha sido somado porque cada recusa foi vivida sozinha.

E olha onde isso encosta em algo bem concreto: as fotos de família dos últimos cinco anos. Se você procurar agora, provavelmente vai encontrar você atrás da câmera em quase todas, e isso não foi acaso.

Esperar o corpo certo é uma condição que se move sozinha

A regra que quase todo mundo usa sem dizer em voz alta é esta: quando eu estiver bem, eu volto. Parece razoável, e é a armadilha mais eficiente do assunto inteiro, porque o alvo se move junto com a pessoa.

Quem estava com um número na cabeça há cinco anos e chegou perto dele descobriu que o alvo tinha andado. O corpo que servia como condição de entrada virou outro, um pouco mais adiante, sempre um pouco mais adiante.

Isso não significa desistir de emagrecer, e essa parte precisa ficar clara. Significa parar de usar o emagrecimento como pedágio para uma vida que já poderia estar acontecendo em paralelo ao tratamento.

Duas contas do mesmo verão
O que você evitaO que isso economiza hojeO que isso cobra depois
Convite de praiaDuas horas de constrangimentoUm verão inteiro fora das fotos da família
Foto em grupoA imagem que você não quer verCinco anos sem registro de você existindo
Consulta de rotinaA balança do consultórioExame que mudaria a conduta e não foi feito
Roupa novaEncarar o número da etiquetaGuarda-roupa que dita o humor de todo dia
Piscina do clubeTrocar de roupa perto de genteO movimento que era o mais fácil de todos

Repare na terceira linha, porque ela é a única com consequência clínica direta. As outras quatro cobram em vida social e em humor, o que já é bastante. Aquela cobra em saúde, e cobra em silêncio.

Existe um teste rápido para saber se a condição se moveu: lembre o número que você tinha na cabeça há cinco anos e compare com o número que você tem hoje. Se o segundo for menor, o alvo andou junto com você.

Corpo evitado deixa de ser examinado, e isso tem consequência clínica

Quem evita a balança costuma evitar o consultório inteiro, e junto com o consultório vai embora a medida de pressão, o exame de rotina, a conversa sobre o remédio contínuo e a investigação que poderia mudar tudo.

Aí acontece o pior arranjo possível: a pessoa passa anos incomodada com o corpo e, ao mesmo tempo, anos sem nenhum dado sobre ele. O incômodo fica, e a informação que resolveria parte do incômodo não chega.

Vale dizer isso com clareza: peso é dado de acompanhamento, do mesmo tipo que pressão arterial e glicemia. Ele serve para comparar com o de três meses atrás, e não para dar nota ao comportamento de ninguém.

Se a balança é o que impede a consulta, diga isso na hora de marcar. Existe como conduzir a avaliação sem transformar o número no centro da conversa, e adiar por anos a investigação por causa de um dado isolado é o pior desfecho possível.

Passar cinco anos incomodada com o corpo e, ao mesmo tempo, cinco anos sem nenhum dado sobre ele é o único arranjo em que ninguém sai ganhando.

Existe ainda um efeito prático que costuma passar batido: a piscina do clube e a caminhada na areia eram, para muita gente, o único movimento que acontecia sem esforço. Evitar o lugar tirou junto o exercício mais fácil.

Mas beleza Luciano, e se eu simplesmente não gostar de praia?

Essa é a objeção mais honesta contra tudo o que está escrito acima, e ela é totalmente válida. Tem gente que odeia areia, odeia sol forte e prefere um domingo com ar-condicionado e um livro, sem nenhum conflito interno.

Por isso a praia aqui é só o exemplo mais visível, e o teste real é outro. Some as recusas de tudo: aniversário, casamento, jantar, viagem em grupo, piscina, formatura, festa de empresa e reencontro de escola.

Se a lista inteira estiver curta e você estiver bem, a tese deste texto simplesmente não é a sua, e isso é um resultado ótimo. Se a lista estiver longa e o motivo se repetir, o motivo merece ser dito em voz alta.

E olha, essa é a parte que quase ninguém escreve num texto de clínica: o mesmo teste que sustenta o argumento daqui também é capaz de derrubá-lo em cinco minutos, com a sua própria lista na mão.

Onde esta tese não se aplica

Não se aplica a quem tem restrição médica real para exposição solar, como quem está em pós-operatório recente ou usando medicação que aumenta a sensibilidade da pele. Nesses casos evitar a praia é conduta, não é vergonha.

Também não se aplica como pressão estética disfarçada de conselho. Nada aqui diz que você precisa aparecer de biquíni em lugar nenhum, e nada aqui trata corpo alheio como assunto de opinião pública.

E não se aplica a quem está com quadro de ansiedade intenso e recorrente. Aí o primeiro passo passa por acompanhamento próprio para isso, antes de qualquer convite, porque insistir sozinha nesse caso costuma reforçar o padrão em vez de quebrar.

O critério do primeiro convite aceito, para a semana que vem

O critério tem três características, e ele existe para tirar a decisão do campo da coragem. Aceite o próximo convite que tiver as três ao mesmo tempo, sem discutir com você mesma sobre estar pronta ou não.

Primeira: dura menos de duas horas, com hora de término já definida. Segunda: tem no máximo quatro pessoas. Terceira: é com gente de convivência próxima, do tipo que você já viu chorar em algum momento.

Se faltar qualquer uma das três, você pode recusar sem culpa nenhuma, porque o critério não é sobre disciplina. Se as três estiverem presentes e mesmo assim vier a recusa, o motivo provavelmente não era o corpo.

Isso não significa que você aceita um convite neste sábado e a vergonha some no domingo. Significa que existe um primeiro dado novo em cinco anos, e todo o resto do trabalho passa a ter onde se apoiar.

As duas listas para começar: a soma dos convites recusados nos últimos cinco verões, com os seus números, e a data da sua última consulta de rotina. A segunda costuma ser a mais reveladora das duas.

Se você quiser transformar isso em plano com investigação e data de reavaliação, a avaliação aqui leva de uma hora a uma hora e meia, e começa pelo que já foi tentado e pelo que ficou de fora nesse período.

Se faz verões que você recusa convite pelo mesmo motivo, veja o que entra na avaliação e agende sua avaliação em Curitiba.